Nada como ter certeza daquilo em que se crê.

Não há dinheiro que pague ter tranquilidade plena e absoluta sobre tudo aquilo que faz parte de sua essência, suas crenças.

Quem assim o tem percorre o caminho de peito aberto, ombros erguidos, coluna ereta, olhar tranquilo.

Dia desses vi um exemplo disso.

Assistindo a um vídeo, desses que correm nos grupos e Facebook , vi um moço em um programa de auditório defendendo sua fé.

Ele tem fé, acredita de verdade na volta de Jesus.

Na Sua volta literal, aquela descrita em Apocalipse 1:7 onde João fala assim:

“Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmo que o traspassaram…”

E ele falava isso com desenvoltura e segurança tendo, muitas veze,  sua fala encoberta por vaias e assovios.

Não é do desconhecimento de ninguém que as pessoas, quando ouvem algo que não está de acordo com aquilo em que elas creem, reagem das formas mais estranhas possíveis.

As que faziam parte do auditório em questão gargalhavam para mostrar sua completa desaprovação e desprezo àquilo que era dito pelo moço.

Ele terminou sua fala após algumas intervenções do apresentador para que a plateia o ouvisse até o fim.

Em seguida, a palavra foi passada para outro convidado.

O outro senhor o contradisse e o ridicularizou em todas as suas colocações.

E ele?

Bem, ele continuou firme e tranquilo.

Afinal, tem certeza daquilo em que crê.

Não importa o que digam, o que pensam dele e de sua fé.

Para ele, não faz diferença estar sob vaias ou aplausos, ele sabe em que acredita e, por isso, caminha tranquilo.

Por quê?

Para quê?

Porque ter certeza pelo que se vive.

Para que todos saibam por que ele vive e está disposto a perder a própria vida.

Para que todos conheçam as verdades que o motivam a prosseguir.

Ter certeza de que tem pelo que viver e, se preciso for, morrer por aquilo por que se vive: privilégio daqueles que têm coragem de acreditar.

 

 

Ela sabia que o erro fora seu.

Tinha consciência plena de que o que fizera não era certo.

Sabia, se lembrava, recordava cada um dos detalhes dos seus atos.

Planejara aquilo minunciosamente para não ser descoberta.

Cada detalhe fora pensado para não deixar rastros.

Telefonemas, mensagens, e-mails.

Tudo devidamente camuflado, escondido.

Não tinha como alegar que fora uma coisa de momento, de impulso.

Não fora.

Ela tinha consciência de que “impulso” era uma alegação que não podia ser apresentada.

Não tinha como.

Fizera todo o planejamento no mais absoluto sigilo.

Pela primeira vez na vida, conseguira realizar algo sem contar nada a ninguém.

Silêncio.

Discrição.

Tudo arquitetado na mais absoluta solidão.

O grande problema é o que não se faz sozinha.

Algumas coisas na vida não têm como serem feitas na mais absoluta solidão.

E essa era uma delas.

Não havia maneira de viver aquela aventura sem acompanhante.

Eram necessários dois.

A escolha do parceiro sim foi involuntária.

Parceiros para essas coisas não se acham em classificados.

Ela, ao menos, acreditava que não tinha como encontrar em uma lista de anúncios.

Não conseguiria.

Sabia, Ela sabia que Ele não era a pessoa certa. Sabia as consequências caso aquilo fosse a cabo.

Quando começaram a se envolver, de leve, como quem não quer nada, Ela pensava conhecer em que aquilo poderia acarretar.

Acreditava saber todas as consequências funestas de suas atitudes.

Algumas vezes, poucas, tentara recuar, parar, deixar de fazer.

Mas estava tão bom…

Resolveu continuar.

Já que iria em frente, apostou que daria conta de fazer tudo discretamente, sem deixar rastros.

A cada passo que dava, pensava temia:

“Acho que não vou dar conta, melhor desistir dessa ideia.”

Nessa hora, a vontade do desconhecido provocava um frio na barriga, fazia seu coração bater mais forte.

Ela sempre vivera com tranquilidade em sua zona de conforto.

Tudo em sua vida sempre às claras.

Nunca fizera nada escondido de ninguém.

Era conhecida por sua transparência.

Agora, depois da vida inteira sendo assim, tinha vontade de viver o novo, o desconhecido, o proibido.

E foi.

Planejou tudo tão direitinho que acreditou conseguir ir e voltar sem que ninguém ficasse sabendo:

“Vou e, quando voltar abandono. Vai ser bom, vai dar certo.”

Caso alguém descubra?

Quando essa ideia chegava, até sentia um calafrio percorrer sua coluna. Sentia como se o chão estivesse abrindo embaixo dos seus pés, tinha sensação de morte.

Um dia antes do embarque, quando todo o seu plano parecia perfeito, foi para frente do espelho enquanto sozinha estava e começou a seguinte conversa consigo mesma:

“Tem certeza do que está fazendo? Tem certeza do que está prestes a fazer? Tenho. Tenho sim. Eu sei que você está absurdamente encantada com todas as possibilidades que podem se abrir, mas você sabe das consequências dos seus atos caso eles venham a ser descobertos? Eu faço ideia do que possa vir a acontecer. Você faz ideia? É, só ideia. Sabe quantas pessoas perderão a confiança em você? Esquecerão toda a boa imagem que construíram da sua pessoa? Sabe que de uma coisa dessas as pessoas jamais se esquecem e contam umas para as outras e, mesmo depois da sua morte, os netos dos seus amigos ainda saberão do que você está prestes a fazer hoje? Eu sei. Mesmo assim, quer continuar? Não sei. Cara, aproveita essa ponta de dúvida e desiste disso! Não posso. Já investi demais em tudo, não dá para desistir agora. E tudo que investiu para chegar a esse ponto em que está a sua vida hoje? Isso não conta? Conta, mas, dessa vez, vou fazer o que manda meu coração.”

Saiu da frente do espelho, pegou a bolsa e foi colocar seu plano em prática.

Viveu, intensamente, todos aqueles dias.

Fez exatamente tudo que secretamente havia ensaiado e planejado.

Todas as suas vontades satisfeitas, cada um dos seus desejos, há tanto acalentados, realizados.

Todos.

Voltou.

Chegou como se fora à esquina comprar pão, com a maior naturalidade do mundo.

Naturalidade essa que durou apenas até encontrá-lo.

Em silêncio, foi fuzilada com um olhar que desnuda a alma.

Na hora soube: fora descoberta.

Tentou o cumprimento habitual, foi bruscamente afastada.

Chegando ao quarto encontrou sobre a cama todos os e-mails, fotos, comprovantes de compra e reservas, tudo, tudo, tudo que provava onde estivera nos últimos dias, com quem estivera.

Ouviu coisas que jamais sonhou escutar na vida.

O chão parecia se mover sob seus pés.

Mãos suadas, coração acelerado, boca seca.

Tentou falar.

Não conseguiu.

Começou a desgrenhar os cabelos em desespero e, de um segundo para o outro, viu tudo que acabara de destruir.

Lembrou-se da conversa que tivera no espelho: havia ponderado a possibilidade de que isso acontecesse, resolvera arriscar.

Mas e agora?

O que seria de sua vida?

Subitamente arrependeu-se.

“Mas não foi tão bom? Está arrependida somente por que foi descoberta?”

“Caso ninguém tivesse ficado sabendo, continuaria a farra que eu sei.”

Enquanto chorava em desespero, isso bailava em sua cabeça como se piões descontrolados fossem.

Tinha vontade de implorar pelo perdão, mas não tinha coragem.

Sabia tudo que fizera, sabia como fizera.

Tinha planejado tão bem, como dera tudo errado?

“Está pensando assim porque não está arrependida de fato. Vai ter coragem de pedir perdão mesmo? Cara de pau. Pode pedir. Você não vai conseguir convencer ninguém.”

Desistiu.

Não pediu.

Apenas chorava e chorava como se já não existisse o amanhã.

Depois que saiu da presença, os ânimos se acalmaram, Ela foi pensar: o que afinal dera errado?

Tudo fora planejado com tanta maestria.

Onde estava o furo?

“Sua vida acaba de tomar um rumo sem volta e tudo que você quer saber é onde errou nos seus planos? Realmente você não tem jeito. Devia estar preocupada em consertar tudo que fez, mas não, quer saber como pode fazer o mal feito mais bem feito.”

Precisava pedir perdão.

Não tinha coragem.

Em sua cabeça, só poderia fazê-lo quando de fato estivesse arrependida.

Não era o caso.

Estava, sim, com medo das consequências de seus atos, mas, quando lembrava o que fizera, ainda sorria.

O tempo passou rápido e as consequências vieram de forma avassaladora: desestruturação deu tudo, absolutamente tudo que construíra ao longo de uma vida inteira.

Quando se lembrava do fizera, já não sorria mais.

Seu choro não era por medo das consequências, pois essas já doíam em sua carne.

O choro era de real arrependimento.

Em sua cabeça, era hora de pedir perdão.

Mas agora, quando arrependida estava, não tinha coragem.

Precisava de mais tempo.

E o arrependimento foi tomando forma, foi dando força a sua coragem.

Lembrava-se de cada passo que a levara até ali.

Chorava sozinha cada um dos detalhes de seu “plano infalível”.

A cada dia ficava mais arrependida, a cada dia tinha mais coragem.

Quando sentiu que daria conta, tentou pela primeira vez a aproximação: foi execrada, completamente rejeitada.

Recuou sem desistir.

De tempos em tempos, tentava conversar.

Queria apenas que Ele soubesse: havia se arrependido, era verdade.

Ele parou para ouvir, enfim.

E Ela abriu o coração.

Falou tudo, pediu perdão.

E Ele, silenciosamente escutou sem contestar:

“Terminou?”

– Terminei.

“Posso ir?”

– Não queria que fosse.

“Mas você me obrigou. Agora, que já disse tudo, tchau.”

E Ela ficou ali com suas lembranças, aventuras, arrependimentos e pedidos de perdão, observando enquanto Ele se afastava silenciosamente.

 

 

 

 

 

– Sempre quis ter a barriga travada, feito a das meninas que nada comem.

* Não existem meninas que nada comem, isso é muita coisa.

– Vamos melhorar a frase:

Sempre quis ter a barriga travada, feito a das meninas que comem certo.

* Aaa tá, assim sim, comem certo, malham certo, bebem certo, sabem dizer não, isso que você quis dizer, não é?

– Foi, foi isso sim.

* E você já tentou isso alguma vez na sua vida?

– Tentei, claro que tentei. Ano passado, a essa hora,em vez de mover a boca, eu estava movendo o pescoço.

* Movendo o pescoço? Como assim?

– Quando alguém me oferecia uma delícia, eu ia com a cabeça da esquerda para a direita, recusando educadamente.

* Aaa ridícula. Pensei que era algum tipo de exercício dessas novas modas.

– Claro que é um exercício. Esse mexe até com a alma de quem o pratica.

* E como foi essa experiência?

– Passei um mês assim: recusando as delícias, dizendo não. Balançando mais a cabeça,  mastigando menos.

* E o que aconteceu?

– Fiz isso durante um mês inteiro.

* E o que aconteceu?

– Quando o mês terminou, eu me entreguei aos prazeres da carne.

* Quando o primeiro mês terminou, você voltou a comer tudo o que já havia deixado para trás?

– Foi.

* Ninguém te avisou que o primeiro mês seria o mais difícil e que, depois dele, tudo seria mais leve?

– Eu nem pensei nisso.  Estava contando os dias para que ele terminasse. Eu só queria voltar a comer.

* Tonta! Estava fazendo sem saber o real motivo por que fazia. Podia ter sido o primeiro mês do resto da sua vida. Foi há um ano?

– Foi.

* Caso tivesse continuado, estaria um ano mais gostosa hoje.

-É, eu sei.

* Isso foi tudo que você já fez na vida para ter a barriga chapada?

– Não. Passei um tempo comendo pizza, chocolate, sorvete e refrigerante só no dia 19 de cada mês.

* E o que aconteceu?

– Emagreci, estava ficando com a barriga sarada.

* E aí?

– Aí, no mês do meu aniversário, eu comi o bolo no dia 08, abri uma exceção naquele mês e, ao final dele, descobri que estava com o mesmo peso dos outros meses em que passava com a dieta restrita. Pensei assim: do que vale restringir se estou com o mesmo peso comendo? Voltei correndo aos prazeres da carne, mais uma vez.

* Caraca! Você é mais tonta que eu imaginava. Por que não continuou? Estava mudando seus hábitos, partindo para comer mais saudável. Com o tempo você estaria tão acostumada a não comer essas besteiras o mês inteiro que nem se lembraria da existência do dia 19.

– Pois é, mais uma vez, voltei aos prazeres do apetite e esqueci a barriga sarada.

* Mas você até que tem boa vontade, toma iniciativa para as mudanças. Isso é bom. O triste é não prosseguir com os propósitos.

– É que tenho vontade real de mudar, mas a vontade de comer fala mais alto.

* Tudo bem. Agora me conte: qual o motivo que te trouxe aqui?

– Quero que você cale a voz da minha vontade de comer.

* Ai, ai, ai! Você é engraçada. Quer que eu, com apenas uma conversa, opere um milagre?

– Caso seja possível…

* Não tem jeito, queridinha, ainda não opero milagres. Se conseguisse essa proeza já estava rica, milionária.

– Mas amigas minhas vieram aqui e tiveram seus problemas resolvidos.

* Claro que elas estiveram. Eu passo as dietas, ensino os exercícios, indico o caminho das pedras. Faço tudo, mas calar a voz da sua vontade de comer, isso é com você. A vontade é sua, a voz também é sua, portanto, sendo tudo seu, a responsabilidade também é sua.

E, assim, Ela, que tinha como prática terceirizar tudo que tinha que domar, continuou com suas gordices, com seus chocolates, pizzas e sorvetes, sem assumir a responsabilidade que era só sua, sem exercícios, sem a barriga sarada, querendo mas nada fazendo.

 

 

 

 

Você tem medo de quê?

Da morte, desemprego, abandono?

A Menina tinha medo de tudo.

Crescera em uma família de dez irmãos, com a diferença de idade entre eles de um ano e meio e três anos.

Oito meninos e duas meninas.

Ela a segunda mais nova.

O sonho da Mãe era ter duas meninas e ela começou cedo.

Conheceu o Pai ainda na adolescência , apaixonou-se e, assim que os dois tiveram como pagar aluguel, água e luz, passaram no cartório, casaram-se e foram trabalhar para realizar o sonho dela, que agora já era dos dois.

O dia em que descobriram que teriam um filho foi o mais feliz de todos.

Ao descobrirem que o bebê que esperavam era um menino, choraram de tristeza.

Era uma menina que queriam.

Depois se consolaram, afinal, era o primeiro, eles eram novos, poderiam ter o segundo filho.

O Menino nasceu forte, saudável, lindo e, quando fez seis meses, foi promovido a “irmão mais velho” : ganharia uma irmãzinha.

Quando fizeram o ultrassom e descobriram ser outro menino, mais choro e decepção.

Depois se consolaram, afinal, era o segundo, eles eram novos, poderiam ter o terceiro filho.

E a sua tão sonhada filhinha teria, quando chegasse, dois seguranças para cuidar dela.

Foi esse pensamento que norteou a vida dos pais da Menina:

“Ainda somos novos, podemos ter o quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo filho.”

Foi quando, na oitava gravidez, descobriram que, enfim, teriam uma menina.

Eles, todos eles, os nove, comemoraram muito, afinal os meninos também já sonhavam com a Menina e, a cada nova gravidez, criavam, junto com seus pais, a bendita expectativa.

A alegria era tanta que, algumas vezes, chegavam  nem acreditar que aquela barriguinha, onde já cresceram oito meninões, agora abrigava uma menininha.

De um minuto para o outro, aquela casa, até então dominada por meninos,  seus carrinhos e bolas, foi ganhando um ar mais delicado.

Um quarto foi reformado e pintado de rosa do teto ao chão. Ficou cheio de borboletas e bonequinhas, tornou-se um lugar encantado para esperar a Menina.

Todos se prepararam e, enfim, o tão aguardado dia do nascimento chegou.

E Ela nasceu linda: um bebê rechonchudo, grandes olhos negros, boquinha delicada, um encanto.

A mãe e toda aquela homaiada derreteram-se apaixonados por ela.

E a Menina foi crescendo sorridente, boazinha, gente boa mesmo.

Dormia bem, comia direitinho, era o bebê dos sonhos.

A festa de um ano da Menina foi algo encantador.

Nem sei te dizer quantos convidados, quanto de comida, o tanto de presente.

Coisa de princesinha.

Logo depois da grande festa, a Mãe descobre que está novamente grávida.

“É, vamos ter mais um para quando formos falar dos filhos não sobrar um dedo da mão sem nome.”

Seria bom se fosse outra garotinha para fazer companhia para a Menina em seu mundo cor-de-rosa, mas, se fosse menino, também ninguém ficaria triste.

Foi uma grata surpresa quando souberam que a Garota estava chegando.

Completados os dedos das mãos, os filhos daquela família gigante foram crescendo felizes em meio a muito barulho, festas e brigas.

Coisa de irmão, coisa de família grande, de gente que se ama.

Menina e a Garota, as duas princesinhas da casa, cresciam como duas bonequinhas mimadas.

Todos viviam para fazê-las felizes.

Não havia um só desejo que ficasse sem ser satisfeito.

Garota era atirada, corajosa.

Brincava com os irmãos de luta, jogava bola, era a rainha do vídeo game.

Menina quietinha, chorona, medrosa.

Tinha medo de tudo a pobrezinha.

Qualquer desagrado que sofria a fazia chorar longamente.

Não era raro vê-la em um cantinho chorando desconsolada como se o mundo estivesse para acabar nos próximos cinco minutos.

Quando alguém corria para acudir e ia investigar o que acontecera, fora um pirulito que caiu ou um móvel que não saiu da frente enquanto ela ia passando e acertara o seu dedinho do pé.

Qualquer coisa era motivo para longas sessões de choro.

Era tanto choro e tanto “tô com medo” que as pessoas foram se acostumando e acudiam cada vez menos.

Sabiam que era drama.

Mas, naquela cabecinha de meninazinha dramática, fervilhavam ideias e mil e muitas possiblidades…

O tempo voa e, para a mãe, eles cresceram  muito rápido.

Cada um foi cuidar da própria vida: os meninos se tornaram médicos, engenheiros,  professores, empresários…

Garota tornou-se administradora e fazia dupla com Menina a cada ideia mirabolantemente tímida que ela tinha.

E Menina, bem, Menina tinha muito medo de tudo, mas maiores que isso eram suas ideias, sua criatividade e a vontade que tinha de produzir, de fazer acontecer tudo de um jeito inovador, de ajudar as pessoas.

Ela descobriu, ainda na infância, a capacidade que tinha de fazer as coisas de um jeito  diferente.

Quando havia algum problema de espaço no quarto que dividia com Garota, ela sempre pensava em uma maneira de arrumar as coisas que nunca ninguém tinha sequer imaginado e tudo se arrumava, ficava maravilhoso, dava certo mesmo.

Quando a Mãe chegava e encontrava aquela arrumação espetacular perguntava:

“Quem fez isso?”

E ela ficava quietinha.

Mesmo com todos os elogios que ouvia, não tinha coragem de assumir que fora sua a ideia.
Os irmãos contavam à mãe, falavam que ela era a autora de tão bela arte, mesmo assim, Menina se retraia.

Quando tinham uma festa para decorar e não tinham com o quê, Menina decorava com qualquer coisa que estivesse à mão: balões, papel crepom, os brinquedos, as louças da casa, qualquer coisa, e dava certo.

Dava certo, era sucesso e ela se encolhia.

Tinha medo.

Quando chegavam a casa e, por algum motivo, não tinha comida para todos, ela ia para a cozinha e resolvia a situação.

Depois ficava quietinha em um canto, tinha medo de que não tivesse ficado do agrado.

E assim era quando tinha que organizar a vida financeira da família, quando alguém estava com um problema que mais parecia um novelo de lã emaranhado: Menina resolvia tudo, mas não gostava que soubessem que fora ela.

Ela descobriu, com o tempo, que podia ajudar outras pessoas, fora da sua família, sem que soubessem do que fizera, e assim, passou  a ajudar conhecidos e desconhecidos em suas pequenas necessidades sem deixar rastros, sem contar a ninguém.

Passava, via o de que precisavam e, depois, vinha e resolvia o problema escondida de tudo e todos.

Em silêncio.

Até que um dia, lá pelas tantas, Menina percebeu que o parque em que brincara durante toda a infância estava completamente destruído e abandonado.

Isso a incomodou tanto que ela resolveu agir.

Conversou com seus irmão e, juntos, montaram um plano de ação: iriam revitalizar o parque.

Daqui a pouco, teriam filhos e onde eles brincariam?

Sob a liderança da Menina eles visitaram empresários, convidaram a comunidade e trabalharam durante meses, consertando cercas, trocando balanços, plantando árvores, pintando bancos.

A movimentação no bairro foi tão grande que eles decidiram que precisavam fazer uma festa na reinauguração do parque.

Uma banda de sucesso, que nascera ali entre aquelas árvores e ganhara o mundo, aceitou o convite de voltar para casa e participar da festa, fazer o show de reinauguração.

Isso deu um gás e tanto e, assim, foi tudo organizado, uma grande festa de comemoração do renascimento do parque.

Chegou o grande dia e o sol levantou cedo, querendo também participar.

O dia inteiro foi de sucesso absoluto.

Pessoas vieram de todas as partes da cidade e as crianças brincaram em cada canto do parque, aproveitando todo o trabalho feito por seus pais e amigos, por elas mesmas.

Ao fim da tarde, o show.

Os meninos da banda cantaram com o coração e foi um sucesso.

As pessoas se divertiram, cantaram, se emocionaram e a Menina, seus irmãos e toda a equipe envolvida estavam de alma lavada: tudo dera certo.

No fim do show, começaram os agradecimentos a todos os envolvidos no projeto.

A Menina, sempre tímida e discreta, começou a sair de fininho.

Ela ia andando, se afastando e, quando olhava para frente, lá estava um deles.

Discretamente mudava de direção e, como quem não quer nada, ia para o outro lado e, do nada, outro aparecia à sua frente.

Foi só na terceira vez que ela olhou por todos os lados e viu cada um de seus nove irmãos: ela estava cercada!

Eles foram chegando perto, chegando perto e rapidamente Menina se viu em uma“gaiola de irmãos”.

Começou a rir de nervosa e perguntou:

“O que vocês estão fazendo? Eu preciso ir ao banheiro.”

Eles, um com a cara mais safada do que o outro, tiveram um porta voz:

“Sabemos o que você quer fazer no banheiro, Maria mijona, mas vai fazer mais tarde. Agora, você vai ficar aqui com a gente.”

Foi nessa hora que todos começaram a ouvir o seguinte:

“Dona Maria do queijo está aqui? – Viu-se uma mãozinha no meio da multidão – a senhora sabe quem coloca todas as semanas na sua cozinha verduras e frutas?”

Ouviu-se um fraco não.

“Ricardinho, você sabe quem paga todos os meses a sua escola?”

Ouviu-se um não.

“Dona Esmerada, a senhora sabe quem comprou a sua cadeira de rodas?”

Ouviu-se um não.

E ele foi repetindo a pergunta às pessoas, se elas sabiam quem tinha feito o bem a elas e uma a uma foi repetindo que não sabia quem o fizera.

Nessa hora, a Menina estava sentada no chão, escondida, grudada nas pernas de seus irmão, chorando baixinho.

“Essa pessoa – continuou ele- que fez todo esse bem a vocês sem ser identificar está aqui hoje.”

Ouviu-se uma movimentação como se estivessem levantando voo, naquele momento, centenas de passarinhos.

“Essa pessoa que ajudou quietinha a tantos de vocês e a mim também, afinal eu nunca soube e ainda não sei, quem pagou meu aluguel quando eu estava prestes a ser despejado, está aqui no parque hoje. Pode estar ao seu lado agora, aí juntinho a você.

Acredito eu, que nosso benfeitor ou benfeitora nunca vai se revelar à nós.”

Nessa hora, a Menina parou de chorar e ficou olhando fixamente para Garota que também estava ali dentro da gaiola de pernas.

E foi assim que ela escutou pela caixas de som do parque:

“Por isso, faça o bem a quem você encontrar pelo bairro, a qualquer um, porque, fazendo isso, você pode estar retribuindo a quem cuida de você em silêncio.”

Nessa hora, a gaiola de irmãos se abaixou e a Menina chorona e medrosa foi coberta, esmagada, amassada pelos beijos e abraços dos seus irmãos que cochichavam baixinho em seu ouvido:

“Eles não sabem, mas nós sabemos que o anjo desse bairro é a nossa Menina medrosa.”

Você tem medo de quê?

Da morte, desemprego, abandono?

A Menina tinha medo de tudo.

A Menina medrosa tinha nele sua companhia em tudo que fazia e de mãos dadas com o medo, conquistava o mundo!

 

 

 

 

 

Não tem jeito, é amor.

Acredito sinceramente que os amores nascidos nos tempos de escola são os mais sofridos.

Você pode dizer pra mim que, afinal, quando nasce assim, no começo da vida, é puro e lindo, caminha feliz pela estrada afora.

Tem certeza?

Quando o amor nasce assim tão cedo, todo mundo se sente no direito de opinar sobre a vida amorosa das criaturinhas.

E, se os apaixonados em questão tiverem coragem de sair contando aos quatro ventos o seu amor, a primeira coisa que escutam em casa é:

“Se tirar nota ruim na escola, esse namoro acaba.”

Como assim?

O que tem a ver nota ruim com o namoro das criaturinhas?

Para os, pais tem tudo a ver, por isso, essa condição, que os envolvidos consideram absurda.

Essa é só a primeira das muitas barreiras que enfrentam.

Têm os amigos que colocam gosto ruim, as tias que falam até da orelha do pobre rapaz e os hormônios.

De quem?

Dos dois.

As criaturinhas estão em fase de mutação, cada dia é um hormônio diferente que está dominando o pedaço, por isso, a cada dia eles estão de um jeito.

Por isso, é natural em um dia, na hora do intervalo, estejam em um cantinho no maior amasso do mundo e no outro no meio do pátio aos berros, brigando feito cão e gato.

Também, por conta das inúmeras mutações que estão passando, de vez em quando, um resolve terminar.

Termina, faz aquele escândalo, desfia um rosário com mil e um motivos por que devem separar-se.

Cada um vai para um lado, chorando como se não houvesse amanhã, até que descobrem, em menos de uma semana, que foi um erro, que, na verdade, o amor é verdadeiro.

Decidem voltar.

Voltar não, acho mais bonito dizer que decidem continuar.

E continuam até a próxima crise de ciúme, pico do hormônio da intolerância, influência de alguém ou até que alguma amiga torna-se mais próxima com a ideia de tomar o moço da mocinha.

É, também tem dessas.

E, assim, o amor que nasce nos primeiros anos de vida vai sofrendo ataques de todos os lados enquanto cresce e se solidifica.

Com o deles, não foi diferente.

Suas mães eram amigas de adolescência que nunca se desgrudaram.

Têm fotografias das duas barrigudas, dos dois dividindo o mesmo berço, um no primeiro aniversário do outro, brincando, brigando…

Sempre estudaram na mesma escola, frequentaram o mesmo clube, a mesma igreja.

Quando perguntavam para Ela:

“E Ele, menina?”

Ela respondia sem nem precisar pensar:

“Ele é o meu irmão mais chato.”

Quando a mesma pergunta era feita para Ele:

“Ela é minha irmãzinha.”

Não passou muito tempo, afinal, o amor começou na adolescência, Ela descobriu que Ele não era tão chato assim e Ele descobriu que na verdade sua amiguinha desde sempre não tinha nada de irmãzinha.

Começaram a namorar e foi aquele escarcéu.

Faz ideia né?

Tudo isso que eu falei aí em cima aconteceu potencializado, tendo em vista a amizade “desde sempre” das famílias envolvidas.

Mas eles foram firmes e valentes e chegaram juntos, de mãos dadas à fase adulta.

Nessa época, todos aqueles obstáculos haviam desaparecido.

Não tinha mais escola, nem amigos, nem opinião desse ou daquele. Agora, eram os dois e a vida que começariam a construir de fato.

Os desafios eram outros, bastante diferentes. Muito mais complexos.

Terminada a faculdade, carreira encaminhada, apartamento financiado, resolvem ficar noivos.

E fizeram “aquela” festa de noivado: tudo um verdadeiro sonho, um encanto.

No dia em que trocaram as alianças, anunciaram a data do casamento: será exatamente daqui a um ano.

Os preparativos começaram acelerados e os dois pareciam viver um mundo de sonhos e encantos: eram tantos detalhes a serem escolhidos, tantas decisões…

Depois de dias e dias de pesquisas, eles começaram a fechar os contratos e a cada um fechado e quitado, era uma pequena comemoração.

Queriam juntos curtir cada etapa desse processo, e assim o fizeram.

Até que um dia Ele a convida para um jantar, assim do nada.

Não há data especial, nenhum motivo aparente para comemorações. Mas Ela, que ama surpresas, se arruma como se para uma festa fosse e foi toda serelepe.

Ele chegou à sua casa no horário combinado.

Elegantemente vestido, estava muito sério e compenetrado.

Ela estranha, mas vê tudo aquilo como parte da “surpresa” que está prestes a receber.

Ele a leva a um restaurante que acaba de ser inaugurado, lugar chique, caro.

Durante todo o jantar, Ele está particularmente sério, com o semblante preocupado.

Parece que tem algo importante a dizer e realmente tem.

Lá pelas tantas, sem qualquer rodeio, Ele dispara:

“Amor, recebi a proposta de passar um ano na sede da empresa. Tenho um mês para me apresentar lá.”

– Você já aceitou?

“Ainda não, vim conversar com você antes.”

E durante as próximas duas horas Ele fala o quanto será maravilhoso para sua carreira passar um ano em Dubai.

As experiências que poderá viver, o enriquecimento do seu currículo, os contatos que fará e mil e uma vantagens para sua vida profissional.

Ao falar cada uma dessas coisas, seus olhos brilham e o sorriso que havia sumido no começo da noite aparece como por milagre.

Foi quando Ela, que permanecera em absoluto silêncio todo esse tempo, sentindo apenas seu estômago embrulhar e suas mãos suarem, resolve chamar sua atenção para um pequeno detalhe:

– Você lembra que temos uma cerimônia de casamento marcada para daqui a seis meses? E que, nessa cerimônia, você é o noivo?

Ele se ajeita na cadeira, arruma o colarinho, limpa a garganta de uma sujeira que não existe:

“Queria te propor para adiarmos nosso casamento por sete meses.”

Ela fica pálida.

Nunca pensou que, depois de todos aqueles anos, Ele fosse fazer a proposta para que Ela esperasse. Desde o começo daquela conversa, estivera esperando o convite para que fosse junto, para que o casamento fosse antecipado. E agora, além de querer deixá-la, Ele quer adiar o casamento?

Como assim?

São mais de 12 anos de namoro, não há mais como adiar.

A conversa toma um rumo meio tenebroso quando Ela se dá conta que a decisão já fora tomada, que Ele só viera comunicar -lhe.

Ela, que entrara tão feliz naquele restaurante, sai arrasada como se o mundo tivesse se mudado para as suas costas, como se o chão tivesse desaparecido de debaixo dos seus pés.

Vai para casa e passa o restante da noite chorando, sem saber o que de fato será.

É quando, lá pelas tantas, Ela se lembra que não é mais aquela menina que resolve as coisas no grito.

Cai a ficha, e tem hora que as fichas todas desaparecem e é preciso um tempo e algumas lágrimas para que elas voltem a cair, e Ela começa a analisar o lado prático das coisas:

Para quem já namorou 12 anos, o que são mais sete meses?

Dormiu pensando que não largaria o amor de uma vida inteira por conta de sete meses.

Acordou com a campainha.

Ao abrir a porta, encontrou um porteiro sorridente com um lindo buquê de rosas vermelhas na mão.

Entre as flores um bilhete:

“Minha flor, não importa onde eu esteja, cada um dos meus dias serão vividos para voltar aos seus braços. Por favor, espere por mim só mais sete meses para vivermos juntos por toda a eternidade.

Eu te amo mais que tudo.

Obs: Deixe comigo a negociação com todos os fornecedores contratados.”

Ela telefonou e, em poucos minutos, Ele estava em sua casa.

Tudo foi acertado e o casamento foi oficialmente adiado para sete meses após o combinado.

Começou a correria para arrumarem a mudança dele.

Juntos arrumaram todos os detalhes, todos.

Sozinho, Ele negociou com cada um dos fornecedores já contratados.

Conseguiu acertar com todos eles a data para sete meses mais tarde.

O mês para arrumação passou voando e, quando se deram conta, já era hora de partir.

Ao contrário do que fizeram no começo do namoro e no noivado, não contaram pra ninguém.

Ele se despediu apenas da família, de alguns amigos e partiu.

E Ela.

Bem, Ela ficou vivendo como se tudo estivesse dentro da maior normalidade do mundo.

Assim, sua carinha, sua rotina, tudo normal, mas o coração, a cabeça, os pensamentos não viviam mais ali.

As notícias correm como se vivessem sobre lebres.

Rapidamente, alguém contou para alguém que contou para outro alguém e todo mundo ficou sabendo que após 12 anos de namoro, faltando 5 meses para o casamento, Ele fora passar 12 meses em Dubai, e que Ela concordara em esperar por sua volta.

Lembra aquelas pessoas que davam opinião lá atrás, quando tudo começou?

Então, aquelas pessoas ressurgiram.

E a pergunta que Ela mais escutava era:

*E por que você não foi junto com Ele?

E Ela ouvia tantas outras coisas que nem vale a pena contar aqui. Tanta chateação, perturbação, tanta gente falando isso e mais aquilo como se Ela adolescente ainda fosse.

É que as pessoas definitivamente não têm desconfiômetro e sempre acham que é mais legal cuidar da vida que não é delas.

Mas Ela, apesar de todo o bombardeio declarado e também velado que recebia, estava feliz.

O tempo, que não corre nem se atrasa, passava na cadência de sempre: levando as chateações, trazendo as saudades.

E Eles, que viviam o tempo contando os minutos para se encontrarem outra vez, iam alimentando o amor que tinham um pelo outro de todas as maneiras que podiam:

Trocavam mensagens durante todo o dia, se falavam todas as noites e faziam surpresas fofas todas as semanas…

E, a cada vez em que se despediam, confirmavam o amor que sentiam um pelo outro.

Ela repetia para Ele:

“Meu coração confirma ao seu que o meu amor por você é puro e verdadeiro e, por isso, te espero todos os dias.”

E Ele repetia para Ela:

“Meu coração confirma ao seu que o meu amor por você é puro e verdadeiro e, por isso, estou voltando para nunca mais nos separarmos.”

E, assim, foram eles, dia a dia alimentando e confirmando o amor que sentiam um pelo outro.

Assim, os dias transformaram-se em semanas, meses, e mês foi se juntando a outro mês até formar uma dúzia inteira.

No dia marcado para Ele chegar, Ela acordou cedo, mas tão cedo, que a rua lá embaixo, sempre tão movimentada e barulhenta, demorou foi muito para dar sinal de vida.

O coração não encontrava lugar dentro do peito, pulava parecendo que, na verdade, era uma pipoqueira lotada de milho bom.

Ela havia comprado um vestido azul da cor do céu que ia até o pé. Longo, sem manga, fininho e esvoaçante, torneava as curvas de seu corpo e a deixava ainda mais bela.

Cabelos soltos nos ombros, maquiagem suave e envolta em um perfume que era um velho conhecido.

Na hora marcada, lá estava Ela, em frente ao portão de desembarque.

Quando viu que o avião que o trazia já estava no pátio, o coração que já estava pulando loucamente, inventou um novo ritmo para pinotear.

As pessoas foram saindo e saindo e nada dele.

Para Ela, toda aquela multidão que vinha em meio a sorrisos e malas não tinha a menor importância, enquanto Ele não aparecesse, todos aqueles eram como se não existissem.

Ela abaixou a cabeça para ver se havia alguma mensagem no celular e, quando levantou, Ele já estava quase podendo tocá-la.

Por um instante, parece que a cena congelou, que ali não havia mais ninguém, só Ela e Ele.

Como estava lindo aquele moço!

Ele foi se aproximando e, quando estavam a distância de um abraço, não se tocaram, apenas se olharam.

Ficaram assim, olhando-se e sorrindo por um longo tempo até que se lançaram nos braços um do outro.

Quando conseguiram se soltar, trocar algumas palavras e controlar o riso e as lágrimas, saíram dali para acertar os últimos detalhes do casamento.

Os dias passaram voando e, exatamente uma semana depois de que Ele voltara, sete meses depois do que fora inicialmente combinado, 13 anos depois do início do namoro, toda aquela gente que, uma vez ou duas, colocou gosto ruim no namoro de adolescente, que colocou gosto ruim no noivado a distância presenciou o mais lindo dos casamentos que alguém poderia ter: o início do felizes para sempre de quem confirmou ao próprio coração e para o coração do outro todo o amor que fazia o próprio coração bater.

 

 

 

Era um pequeno e mimoso broche.

Florezinhas delicadamente esculpidas, pintadas de rosa, azul e amarelo.

Sendo duas de cada cor.

Rodeadas de folhinhas verdes, um pouquinho maiores que as flores.

Igualmente delicadas.

Todas elas, as cores, naquela tonalidade suave que são facilmente encontradas nos enxovais de bebês.

Ela, mulher valente, forte, porém delicada.

Cabelos, sempre muito bem penteados em um coque impecável, eram visivelmente coloridos periodicamente.

Sempre muito bem vestida e elegante, tinha, em todo o figurino que usasse, um lugar especial para o adorno.

Muito séria e compenetrada nas atividades que desenvolvia, não era adepta a conversinhas e pouco se sabia de sua vida pessoal.

Certo é que muito se especulava sobre “aquele” broche.

Era assunto recorrente nas rodinhas do café:

“Ouvi dizer que era da avó.” – diziam alguns.

“Acho que é o amuleto da sorte.” – diziam outros.

Algumas pessoas já haviam tentado descobrir o motivo da insistência, o porquê de usar apenas aquele broche. Mas ela, muito educada, ria, concordava com qualquer coisa que fosse dita e mudava de assunto.

No fim das contas, juntando todas as informações, a única coisa com que todos concordavam era que aquele broche era presente de alguém muito especial.

Com o tempo, as pessoas que conviviam diariamente passaram apenas a admirar o fato das combinações entre figurino e adorno serem tão bem feitas e nada mais.

Desistiram das especulações.

Um dia, Ela me chamou em sua sala.

Entrei com alguns documentos em mão, pensando que iríamos resolver  problemas que estavam pendentes naquele dia.

Qual não foi minha surpresa ao encontra-la de costas para a porta, cabeça baixa!

Pelo reflexo da janela, pude ver que chorava com o broche nas mãos.

Pedi desculpas, disse que voltaria outra hora e fui me retirando.

Ela pediu que eu ficasse.

Que me sentasse.

Sentei sem nem imaginar o que ela iria me falar:

“Nunca pensei que esse dia chegaria. O dia em que sentiria vontade, necessidade, desejo de me livrar desse broche. De jogá-lo fora, nunca mais vê-lo.”

“Eu não poderia simplesmente abrir a lata de lixo e descartá-lo como um objeto sem significado, sem valor. Não daria conta.”

“Esse broche, Menina, acompanha cada um dos meus dias há 35 anos. Foi com ele  que vivi meus dias mais ensolarados e felizes. Foi com ele aqui, em cima do meu coração, que tive os meus dias mais sombrios e sofridos.”

Nessa hora, para meu desespero, ela debruçou sobre a mesa e começou a soluçar de maneira inconsolável.

Eu, que já estava muda, fiquei ainda mais nervosa, sem saber o que fazer.

Levantei-me apressada, tranquei a porta, desliguei os telefones e encostei,  em seu braço, uma caixa de lenços.

Ela ergueu a cabeça, agradeceu e limpou o nariz ruidosamente.

Respirou fundo, ficou ereta e passando as mãos pelos cabelos, que, pela primeira vez, eu via desalinhados, recomeçou:

“Era uma linda manhã de domingo no inverno de 1982. Nesse dia, Ele me chamou para corrermos no parque.”

“Fui toda satisfeita.”

“Lá, fizemos de conta que corremos e ficamos passeando. Andamos de pedalinho, comemos algodão doce, rimos, namoramos, brincamos como  crianças que de fato éramos: eu acabara de completar 15 anos e ele, 17.”

“Mais tarde Ele me convidou para irmos a uma feira que ficava ao lado do parque.”

“Fomos.”

“E lá foi uma farra gastronômica: comemos tudo que nosso rico dinheirinho conseguiu comprar.”

“Quando já estávamos quase indo embora, passamos por uma banca que tinha várias miudezas: prendedores de cabelo, grampinhos e pentes enfeitados, pequenos pingentes e broches. Vários e vários broches, um mais delicado que o outro.”

“Ele pegou esse e me disse: Quando você se lembrar de mim, use este brochinho.”

“Ainda ficamos juntos seis meses depois daquele dia.”

“Foram os seis meses mais felizes da minha vida.”

“Vivemos intensamente cada momento.”

“Só que eu vivia intensamente ao seu lado e longe dele.”

“Já Ele…”

Ainda acariciando o broche que tinha nas mãos, Ela sorriu triste olhando para o objeto que trazia tantas recordações:

“Como não teve um só dia em que eu não me lembrasse dele, não parei de usá-lo todos esses anos.”

“No começo, era por amor. Depois que a revolta e amargura tomaram conta do meu coração, foi para mostrar para Ele, como se nesse broche tivesse uma câmera que registrasse meus passos, aonde cheguei, em quem me tornei.”

“Na minha cabeça, usar o broche era mostrar a Ele que, apesar de tudo, eu venci.”

“Mas, agora que não existe mais qualquer possibilidade de reaproximação, pela primeira vez em minha vida, eu quero esquecer. Esquecer, de  maneira tão definitiva, para nunca mais me lembrar de que, um , Ele viveu aqui. Por isso, Menina, você pode dar um fim nele para mim?”

Eu fiquei segurando aquele broche, pensando em todo o seu significado.

Já Ela, levantou, soltou os cabelos, secou o rosto, passou um batom vermelho e,  antes de me deixar ali estupefata, disparou:

“Menina, caso você tenha alguma coisa antiga aí guardada que não  traga somente boas recordações, jogue fora! Porque quem guarda coisa velha e ainda coisa velha que traz má recordação não passa de um bobo iludido.”

 

 

 

Você gosta de curiar a vida alheia?

Não?

Tem certeza?

Para que é então que você tem Instagran e Facebook?

Se for para encontrar os amigos, já pode terminar as contas hoje mesmo. Já deu muito tempo de encontrar tudo que era amigo de infância. Até porque você só fez amigos de infância naquela época lá atrás, então não tem mais ninguém para encontrar.

Se não for para curiar, então você mantém essas contas para se amostrar?

Para ficar exibindo aos quatro cantos da Terra tudo que você faz, aonde vai, o que come, o que pensa ou deixa de pensar?

Não, né?

Porque tem gente, não estou dizendo que esse é o seu caso, longe de mim falar isso, que fica mais preocupado em vigiar o que acontece na vida alheia do que em viver a própria vida.

A pessoa passa horas e horas do seu dia olhando, seguindo e curtindo o que Fulado e Beltrano fizeram, comeram, visitaram, compraram e simplesmente esquecem de fazer, comer, visitar e comprar.

E ainda tem um outro tipo de gente: aquele que fica admirando o que não é seu e colocando defeito no que lhe pertence.

Assim: a criatura vê seu cabelo lindo, maravilhoso e sedoso naquela foto que você postou e comenta:

“Nossa, como o cabelo dela está lindo. Olha o meu, parece algo que nem sei nomear, como é que faz pra ter um cabelo assim tão lindo?”

E, assim, a cada curiada, é um comentário enaltecendo o de lá e depreciando o de cá.

Ao fim do dia, a pobre criatura já acabou com o próprio cabelo, corpo, pele, casa, trabalho, família, amigos, cachorro, papagaio…

Por isso, lanço hoje uma campanha: “abandone o curiamento, pratique o enobrecimento” para que as pessoas parem de curiar e invejar o que não são delas e passem a valorizar e enobrecer o que lhes pertence.

Admire, curta o que o outro faz, come, visita, compra mas não esqueça de valorizar, enobrecer o que é seu.

Por que o dele, é dele, não seu.

E, se você valorizar só o que é do outro, quem vai gostar, admirar e curtir o que lhe pertence?

Abandone o curiamento, pratique o enobrecimento!

 

 

Eu já ouvi dizer que existem pessoas que, quando decidem fazer ou deixar de fazer alguma coisa, vão lá e fazem.

Vão lá e abandonam o que não mais querem para sempre.

Assim, como em um passe de mágica!

Não tem recaídas ou crises de abstinência.

Como assim?

Eu decido abandonar os doces e começar a malhar toda quinta-feira.

Decido de verdade.

Não faço matrícula na academia toda semana porque fiz quando o ano começou e pago fielmente todos os meses.

Vou lá, religiosamente, toda segunda-feira.

Por que decido quinta e só apareço por lá na segunda?

Assim, a decisão verdadeira acontece tantos dias antes porque é preciso um preparo psicológico para uma mudança tão drástica na vida.

Decido na quinta e começo a me planejar, a me despedir:

Faço um horário para ser cumprido a partir de segunda onde está incluída, com letras garrafais, ACADEMIA.

Com toda a minha rotina decidida, começo a me despedir.

De quem?

Dos doces!

Vou àquela loja onde tem um corredor de doces até o caixa e compro cinco unidades de todas aquelas tentações e penso assim:

“A partir de segunda-feira, todos vocês serão feitos de excremento. E como eu não como essas coisas, a partir de segunda-feira nunca mais como nada disso aqui.”

Quando saio de lá, carregada de delícias, pareço a pessoa mais feliz do mundo.

Sou só sorrisos e nada mais.

Chego à minha casa e saboreio cada um deles como se não houvesse amanhã.
Entre um doce e outro, como pizza, bebo isso e aquilo, sorvete, saio com os amigos e me esbaldo: nesse fim de semana eu posso, estou me despedindo!

O último se vai enquanto escuto a música do Fantástico e a “festa do adeus” está oficialmente encerrada:

“Adeus doçuras, amanhã serei uma nova mulher.”

Amanheço a segunda-feira com esse espírito de novidade de vida.

Tomo café com frutas e castanhas.

Almoço feito de saladinha e grelhado.

Frutinha.

Suquinho.

Chazinho.

Academia.

Castanha.

Quando volto à minha cama, não estou assim tão feliz.

Acordo na terça-feira sem nem conseguir piscar direito:

“Meu Pai, o que aconteceu durante a noite? Fui atropelada enquanto dormia?”

Não!

Claro que não!

Isso é apenas o efeito do primeiro dia de malhação.

Repito a agenda e o cardápio do dia anterior.

Na quarta-feira pela manhã, sinto como se tivesse sido triplamente atropelada, mal consigo me mexer.

Ajunto forças, não sei de onde, e vou cumprir a agenda do dia.

A falta de doces já dá sinais de vida: mau humor, irritabilidade, cansaço.

Ao longo do dia junta a vontade desesperada de mergulhar em um barril de chocolate, de comer o mundo inteiro e a dor que sinto pelo corpo todo que penso é em desaparecer.

Mas desaparecer pra onde?

Aonde eu for minha, vontade e dor irão comigo!

“E se eu comer só um quadradinho de chocolate? E se eu não for só hoje à academia?”

Não!

Não posso!

Se eu deixar de ir só hoje, eu não volto mais, como aconteceu em tantas outras semanas, e hoje ainda é quarta-feira.

Se eu comer um quadradinho só, coloco tudo a perder, como já fiz tantas vezes.

O dia termina e eu tô que não me aguento. Juro pelo que você quiser: minha maior vontade é fugir de mim.

Os dias vão passando e eu continuo sem comer doce e malhando.

Miraculosamente, as dores do corpo vão diminuindo e a vontade de comer doces também.

Até que chega o dia em que, de livre e espontânea vontade, me coloco à prova: volto àquela loja que tem doces no caminho da fila para o caixa.

A fila está gigante quando me posiciono com algumas coisas nas mãos.

Vou indo bem até que entro no corredor onde tenho meus doces e chocolates preferidos à minha frente, atrás de mim, de um lado e do outro.

Vou andando na velocidade da fila e repetindo:

“Tudo aqui é feito daquilo que você não come. Você come cocô? Tá sentindo como fede? Então, não toque em nada.”

Enquanto me concentro naquilo que desejo que seja a verdade, a moça que está à minha frente começa a desembrulhar meu chocolate preferido e comer como a maior delícia do mundo, que de fato ele é.

“Acho que hoje você merece comer um desses. Só um não vai fazer diferença. Você está malhando direitinho, comendo bonitinho. Nunca mais comeu um pão, nunca mais chupou uma balinha. Come um, só um, você merece.”

Quando me dei conta esse era o único pensamento que eu tinha.

Tentava pensar que tudo era feito de cocô, mas a única ideia que me vinha à cabeça era a delícia que aquela moça estava sentindo.

De um minuto para o outro, sem ver como, estava com o chocolate na mão já pronta para abri-lo!

Tomei um susto, abandonei tudo que ia levar ali mesmo e aos solavancos fui andando na contra-mão, atropelando todo mundo que estava à minha frente, fugindo mesmo.

Eu não perderia todos os dias passados de abstinência e dor, não jogaria tudo fora por um simples chocolate.

Não dessa vez!

 

 

A angústia era visível.

Rosto vermelho, mãos derretendo, pés que não paravam de se movimentar:

“Mas eu preciso compreender. Preciso entender o motivo de tudo isso.”

Rosto sereno, mãos descansadas sobre o colo, pés tranquilamente acomodados um ao lado do outro:

– Apenas faça o que estou dizendo, vai dar certo.

Levanta, anda pela sala, procura palavras:

“Não consigo simplesmente fazer algo tão importante sem saber qual motivo, o porquê.”

Sentado estava, sentado continuou:

– Vou te contar uma história, será que você pode sentar para ouvir?

Na hora ouviu-se um baque de quem se larga no sofá mais próximo.

– Estavam em alto mar quando a brisa suave começou a cantar diferente. Começou a soprar cada vez mais forte. As nuvens brancas foram sendo tingidas pouco a pouco: de cinza a negras, foi de um instante para o outro. A tripulação do barco pequenino manteve a calma e trabalhava para que a situação não saísse do controle. Continuaram concentrados no que estavam fazendo, cada um cumprindo sua função, trabalhando para passarem por aquele momento difícil. Foi quando uma onda gigante invadiu a pequena embarcação.

Quando ela se foi, descobriram, em desespero, que havia menos um.

Esqueceram-se das atividades que desenvolviam para salvar a própria pele, para salvar a embarcação. Agora, havia menos um.

Viram, não muito longe do barco, em meio à tempestade, quem faltava.

Lançaram uma corda que milagrosamente foi pega.

Tão rapidamente quanto fora, voltara.

Agora, lutar contra a tempestade parecia ser fichinha, estavam todos ali, eram fortes e juntos destemidos.

Olhou para o narrador como se nada entendesse:

“E o que essa história tem a ver com a minha tempestade particular?”- falou já com as mãos na cabeça, voltando à realidade.

Sem alterar a voz ou a respiração:

– No pequeno barco havia regras, eles a seguiam. Quando começou a tempestade, todos sabiam o que cada um deveria fazer. Quando alguém foi atirado ao mar, desestabilizaram-se por um momento, mas, no instante seguinte, retomaram o controle, saíram da situação. Voltaram ao trabalho, cada um cumprindo o seu papel, sem questionar, até saírem sãos e salvos da tempestade.

Olhos esbugalhados denunciavam que o desespero aumentava a cada instante.

“Aonde você quer chegar com isso? Cadê a ajuda para minha situação? Diga logo, não suporto mais esperar!”

O desespero de um não contagiava o outro:

– Eles tinham na embarcação uma pessoa que já havia vivido todos os tipos de tempestades. Que já havia navegado por todos os mares, sabia exatamente o que fazer em cada uma das situações, e nele confiavam. O que dizia: façam. Era feito sem qualquer questionamento. É isso que eu quero de você, confie no que eu te proponho. Não questione. Vá sem entender mesmo, apenas faça o que te digo, vai dar certo.

Pela primeira vez, as palavras fizeram sentindo.

Pela primeira vez, sentou-se tranquilamente e decidiu obedecer.

Perguntou com sincera confiança o que deveria fazer.

Ouviu, anotou sem questionar.

Saiu dali para resolver.

Naquele dia, aprendeu a confiar no silêncio, a saber que o “espere” faz parte da resposta e que não há situação, por pior que seja, para qual não haja solução.

Basta confiar e obedecer, sem questionar.

 

 

 

 

“Você está triste?”

A Moça se assustou ao ouvir essa pergunta de um completo desconhecido e pensou por um segundo em ignorá-la. Foi quando se deparou com seu sorriso e resolveu ser educada:

– Triste, triste não, mas estou chateada, de saco cheio dessa minha vida.

O Desconhecido pareceu achar normal tamanha sinceridade.

Sorriu:

“Sério? Que coisa mais ruim. Espero sinceramente que as coisas melhorem, afinal, deve ser muito triste estar assim em um dia tão lindo.”

A Moça começou a olhar em volta e viu que realmente o dia estava interessante.

Ela se virou para o Desconhecido:

– Eu nem tinha reparado, realmente o dia está bonito.

Ele deu um pulo:

“Bonito, Moça, bonito? Você só pode estar brincando – disse calma e pausadamente – Repare esse céu absolutamente azul, esses pássaros cantando e essas árvores. Elas estão te dando um banho de flores enquanto a brisa suave desalinha levemente seus cabelos.

Olhe ali, olhe: duas borboletas fazendo graça bem em frente ao seu nariz! Quer melhor presente pela manhã? O dia não está bonito, ele está magnífico!”

A Moça coitada, que estava ali quietinha com seu mau humor e chateação, apenas esperando sua condução, começou a olhar para todos os lados, notando, pela primeira vez, cada uma das coisas que ele descrevera:

– Realmente – disse admirada- você tem razão, o dia está magnífico –  como se lembrasse de alguma coisa há muito esquecida.

O Desconhecido então arriscou mais uma antes que ela se fosse:

“Quando acordo como você está hoje, começo a agradecer. Vou pensando em todas as coisas boas que tenho na vida e agradecendo, agradecendo. Assim, consigo esquecer de todas as coisas chatas que me rodeiam e volto a ser feliz. Estava aqui reparando que, se você quiser fazer isso, pode começar agradecendo por seus olhos, você tem belos olhos.”

A Moça ficou sem graça:

– Muito obrigada.

O Desconhecido, fazendo-se de desentendido:

“Não, para mim não, agradeça seus belos olhos a quem os deu pra você.”

Ela enfim sorriu:

– Você é sempre assim? Fica querendo animar pessoas mal humoradas logo cedo às segundas-feiras?

“Nem sempre, mas é que, quando estou por aqui, onde tem essas árvores tão cheias de flores e vida, fico querendo repartir minha admiração com alguém. Aí, hoje foi com você.”

– Muito obrigada.

Ele sorriu como se a Moça não tivesse entendido nada:

“Já te disse para não me agradecer. Agradeça a quem fez as árvores e suas flores, caso elas não estivessem aqui, eu também não estaria.”

Eles foram conversando e o Desconhecido sugeriu à Moça, mais uma vez, que ela agradecesse por mais alguma coisa que fizesse bem a sua vida:

“Suas botas são lindas, cabe gratidão por elas.”

E, assim, após alguns minutos, os dois já gargalhavam como se velhos amigos fossem. O mau humor da Moça havia desaparecido e o Desconhecido estava feliz por ter presenciado a troca de um bico por um sorriso.

Foi quando o transporte dela chegou:

– Muito obrigada por ter-me feito lembrar tantas coisas boas que tenho na vida. Muito obrigada por ter me ensinado a agradecer.

Ele sorriu:

“Não agradeça a mim, agradeça a quem te proporciona tudo isso.”

Ela entrou e se virou a tempo de vê-lo andando rápido para o lado oposto e, em pensamento, agradeceu pelo Desconhecido que não estava esperando nada nem ninguém, simplesmente havia parado para ensiná-la agradecer.

 

 

 

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