Vivi Antunes

Em meu último dia antes das férias,  me despedi de todos na maior farra:

“Daqui a 30 dias, estarei de volta, meu povo. Não chorem. Estarei mais bronzeada, mais bonita, mais sarada. Por favor, não se apavorem. Mesmo que algum nativo sarado queira me sequestrar, não temam, eu não os abandonarei. Só um detalhe: vou silenciar o grupo para que vocês sintam minha falta.”

Beijei todo mundo, fiz farra com a geral, mas, em vez de silenciar o grupo do

trabalho, saí dele.

Não queria nem saber o que se passava no escritório durante minhas férias.

Paz e tranquilidade longe dali eram tudo o que eu queria.

Depois disso, aeroporto e água salgada.

Praia, sol e mar.

Descansei corpo, alma e coração.

Nunca em minha vida, tinha ficado tanto tempo longe do cerrado.

Nunca fora tão feliz.

Só que até o muito bom dura pouco.

Consegui heroicamente ficar todo esse tempo sem dizer se quer um “olá” pra ninguém. Sai dos grupos, dei férias às redes sociais e fiquei sem saber de nada que rolava.

Os 30 dias passaram voando e eu voltei.

Cheguei cheia de chaveirinhos e novidades, mas nem tanto quanto as novidades que lá encontrei.

Já na recepção, deparei-me com uma moça diferente:

“Bom dia. A Lili tá de folga?”

– A Lili não trabalha mais aqui.

Fiquei assustada, mas continuei entrando.

E, a cada mesa por que passava, sentia falta do rosto de um amigo. É que seu lugar estava ocupado por uma carinha completamente desconhecida.

Minhas pernas foram amolecendo quando me dei conta, ao chegar à minha mesa, que metade do pessoal a que eu dera tchau há trinta dias, tinha recebido tchau também do “big boss”.

“O que aconteceu aqui?” – perguntei a um remanescente.

“Eles estão cortando gastos. Mandaram embora todo o pessoal antigo e contrataram esse monte de menino pela metade do preço.”

Fiquei chocada, mas não me dei o direito de ficar de luto muito tempo.

Comecei a trabalhar imediatamente.

E o medo?

Tinha que colocar em dia minhas atividades o mais rápido possível, não podia dar motivo para aquela onda me pegar.

Passei a primeira semana pós-férias querendo ficar quase invisível para que ninguém se lembrasse de mim.

Vai que lembram e mostram a rua?

Não adiantou.

Justo na terça-feira, depois que o trabalho que ficara parado 30 dias estava todo girando em perfeita harmonia com o universo, recebi o telefonema:

“Oi, flor. Vem aqui ao RH.”

Olhei para meus colegas e disparei:

“Daqui a pouco, volto buscar minhas coisas.”

E assim foi.

Cheguei lá, eles me contaram uma história triste sobre redução dos custos e clientes.

Que eu era maravilhosa e que sentiriam minha falta.

Sentiriam falta, mas, mesmo assim, mandariam embora?

Tá certo.

Deram uma carta de recomendação e disseram que eu arrumaria emprego fácil em outra empresa do mesmo segmento. Afinal, era muito eficiente como Ouvidora.

Agradeci, fiz uma graça como se aquele momento fosse a realização de um sonho.

Enquanto isso, a única coisa que girava em minha cabeça era:

“Ainda bem que não fiz dívida no cartão de crédito, ainda bem que quitei a viagem antes de ir, ainda bem que não tenho dívida, ainda bem que não tenho dívida.”

E, agora, enquanto procuro outro emprego, repito o mantra: ainda bem que não tenho dívida.

Só que, assim, não posso me alegrar demais não, porque não tenho hoje, mas, amanhã, elas surgirão. Então, mudarei o mantra:

Quem tem um emprego pra mim? Quem tem um emprego pra mim?

 

 

 

 

 

De um minuto para o outro, tudo mudou.

O que parecia estável e certo, o “para sempre” simplesmente não existe mais.

Foi-se.

Não sei ao certo em que curva do caminho nos perdemos.

Via sinais, indícios, aqui e ali, de que as coisas não iam bem, mas, no momento seguinte, céu azul, pássaros cantando.

Acreditava assim que era apenas mais um desentendimento.

Além do mais, havia amor.

Ele nunca deixou de existir.

Ao menos aqui no meu peito, não.

Mas teve um dia em que os sinais, indícios, aqui e ali, de que as coisas não iam bem vieram com tudo e, no momento seguinte,  nuvens pesadas, tempestade, raios e trovões.

Eu pensei: com a volta do sol, vem o céu azul e pássaros cantando. O astro rei fará com que tudo volte ao normal.

Ledo engano.

A tempestade se instalou de verdade.

Até que um dia recebi a sugestão:

“É melhor você se mudar. Vai ser mais tranquilo para nós dois, para as meninas.”

Como assim?

Mudar?

Para onde?

Essa é a minha casa. Tudo aqui foi metodicamente planejado, sonhado, construído também por mim.

A tempestade se instala e eu tenho de sair?

E nosso amor?

Mudar para onde?

A tempestade e o céu negro que só moravam na relação que até então era meu porto seguro, instalaram-se dentro de mim.

Pedi dois dias para procurar um lugar em que pudesse me instalar.

Em duas horas, havia ajuntado minhas roupas, alguns livros, conversado com minhas filhas e partido.

Saí sem rumo, como se indigente fosse.

Parei e chorei.

Chorei como criança toda a dor e frustração de algo que não queria estar vivendo.

Eu não podia ficar parado no meio da rua simplesmente chorando.

Não o fiz.

Hoje tem quatro meses que esse dia, o mais doloroso da minha existência, ficou para trás.

Assim, ainda não posso dizer que estou pronto para outra.

Ainda não posso dizer que o sol voltou a brilhar, mas está entre nuvens, de quando em vez, ele mostra a cara, todo pimpão.

Esse lugar aqui, onde vim morar, bem no meio da tempestade, já o reconheço como minha casa.

Sei o nome de alguns vizinhos que, assim como eu, estão passando uma temporada entre uma fase e outra da vida.

As coisas estão se acalmando de tal maneira e assumindo uma normalidade que chego a pensar que tudo sempre foi assim.

Quando isso me vem à cabeça me recordo, mesmo sem querer, de tudo que eu tanto amo e não mais existe. Aí, dá aquela vontade gigante de encolher. É nessa hora que me pergunto:

“Encolher pra onde, criatura? Encolhendo vai ter alguém pra te ajudar a esticar?”

Não vai.

Não há ninguém, nem para consolar nem para qualquer outra coisa.

Então, o negócio é não me encolher, não retroceder.

E, como sinal de coragem e desencolhimento hoje, não vou esquecer a toalha na hora do banho e quando deitar para dormir vou apagar a luz e desligar a televisão.

Desencolhimento, assim como crescimento, se dá aos poucos, por isso, caminho devagar e com alegria, valorizando cada pequena conquista!

 

 

 

A Menina adolescente conta ao pai um acontecido com o amigo.

No dia seguinte, outro acontecimento.

No terceiro dia um elogio ao Garoto.

E assim vai.

A cada dia uma história, um elogio, uma gargalhada envolvendo o dito.

Tão engraçado, tão inteligente, tão lindo!

De uma hora para outra desaparece.

As histórias somem e não se escuta mais falar nada do rapaz.

“Cadê aquele seu amigo?”

– Que amigo? Eu não tenho amigo.

“Como assim não tem amigo, menina? E aquele Garoto que até semana passada era tão engraçado, tão inteligente, tão lindo?”

A Menina olha o pai como quem vê um alienígena:

-Ué, ele tá lá.

O pai, um tanto admirado:

“ Você passou dias e dias falando nele e agora simplesmente: “Ele tá lá”? Está lá aonde?”

– Aaa pai. Está cuidado da vida dele. Acho que está bem, já me mandou mensagem hoje de manhã.

“O que aconteceu que você nunca mais falou nele?” – o pai curioso insistiu.

A mocinha faz a cara mais desiludida desse mundo e dispara:

– Ele me mandou uma carta.

“Que bacana. Uma carta? Nunca mais ouvira falar de alguém enviando cartas.” – falou admirado.

– Bacana o quê, pai? – falou a Menina arregalando os olhos .

“O Garoto te mandou uma carta. Isso é muito legal. Já sei! Tem muito erro de português? É isso?”

– Não! Ele acabou de passar em um vestibular concorrido, tirou nota máxima na redação.

“O garoto é gente boa, inteligente, lindo, engraçado, acabou de passar no vestibular e ainda manda carta? Qual o problema do rapaz?”

A Menina sentada na ponta do sofá, completamente ereta, em posição de ataque, respondeu falando rápido e gesticulando como se quisesse convencer uma multidão:

-Pai, você não está entendendo. O Garoto me entregou uma carta que tinha no final um coração desenhado. Ele desenhou um coração! E tem mais!

“Que coisa mais linda, minha filha. Ele é romântico!”

– Romântico? Que romântico coisa nenhuma. – continuou revoltada- Ele é um bocó. Além da carta, eu não te falei, mas outro dia ele mandou flores, bombons. E depois de toda essa marmotada ele agora apareceu com a conversa que quer te conhecer!

“Conhecer a minha pessoa? Pra quê?”

–  Então, pra quê? – ar desiludido tomou conta da sua expressão – Eu também queria saber o motivo de tamanho interesse dele no meu pai. Mas dia desses ele me revelou.

“Conta! Conta!”

– Ele quer falar com você.

“Falar o que, minha gente?”

– Que ele quer me namorar!

O pai a essa altura já estava em pé, empolgação proporcional ao desinteresse da Menina:

“Que coisa mais linda. Quando iremos nos conhecer?”

A Menina indignou-se:

– Coisa mais linda, não é ? – falou com sarcasmo – Já pensou ? Todo mundo sabendo que o Garoto me pediu em namoro ao meu pai? Eu ia morrer de vergonha. E além do mais ele desenhou um coração no pé da carta!

O pai, visivelmente espantado:

“Eu não te entendo. Simplesmente não te entendo! Você falou dias e dias que ele é engraçado, inteligente e lindo. Agora me conta que mandou flores, bombons e carta. Detalhe importante: carta sem erro de português, coisa rara nos dias de hoje, e exatamente por isso você não mais se interessa pelo rapaz? Explique a esse velho pai o que se passa em sua cabecinha, minha filha, explique!”

A Menina até então empoada se encolhe no sofá como se uma gata fosse e dispara:

– É por isso mesmo pai, esse modelo não existe mais, então não tem manual de uso nem peça para reposição. Melhor fugir enquanto é tempo.

Ao pai admirado só restou se conformar:

“Mulheres, cada geração entendo menos.”

 

 

Professor.

Não o fora desde sempre.

Antes que ali chegasse fora atendente, entregador, boy e empresário.

O ramo?

Pizza.

Mais especificamente,  tele pizza.

Ele fazia, atendia, entregava, fazia serviço de banco e administrava.

Entre uma coisa e outra, também namorava.

Visitava a namorada no carro estampado:

“Tele Pizza do Magrelo”

Fazia sucesso, engordava a galera.

Um dia, saindo da casa da namorada, distraiu-se e acertou em cheio um carrão que estava parado ao lado.

Que droga!

E agora?

O estrago fora grande.

Saiu de fininho e consultou seus pares:

“Alguém viu?”

– Ninguém.

“Então esquece isso. Ninguém viu, não foi você.”

Ele bem que tentou esquecer.

Mas enquanto atendia, entregava, fazia serviço de banco, administrava e namorava, a única coisa em que pensava era:

“Bati no carro de um cara e não assumi. Sou mesmo um frango magricela.”

O dia de namorar chegou outra vez e quando ele estacionou seu carro estampado e foi andando para a casa da namorada viu o amassado.

É, por que ao encontrar outra vez o carro que batera nem o enxergou, só viu o que fizera.

“Mas que droga! Agora esse carro vai me perseguir?” – disse seguindo seu caminho.

Arrependeu-se:

“Vou resolver esse negócio agora!”

Tinha uma quadra ali perto e ele imaginou que o dono lá estivesse.

Foi andando e sentindo-se meio bobo, ainda ouvindo o conselho que recebera:

“Ninguém viu, então não foi você.”

– Oi, por favor, de quem é aquele carro ali?

– É do Rubão.

Quando ele viu o Rubão quase se arrependeu por ter começado aquela remissão.

Rubão era enorme.

Sem a menor sombra de dúvidas seus dois braços magrelos não dariam um daquele gigante.

Mas agora era tarde, tinha que continuar.

O importante seria a abordagem.

“Oi, Rubão. Dia desses estacionei perto do seu carro e na hora de sair o acertei. Naquele dia não tive como procurar por você, – mentiu- mas como faço para acertar isso?”

O cara passou de espantado a feliz em poucos segundos.

Magrelo e Fortão combinaram como fariam para que o carro ficasse com a lataria consertada.

Dinheiro transferido, amassado consertado, ninguém lembrou mais disso.

O tempo que não para foi suficiente para transformar o atendente, entregador, boy, empresário em professor de sucesso.

A magreleza não desaparecera, mas diminuíra consideravelmente e o dono da Tele pizza do Magrelo agora distribuía conhecimento para centenas de alunos a cada semana.

Até que um dia, em um dos corredores:

“Professor, você bateu no meu carro.”

“Eu? Quando fiz isso?”

O aluno apresentou-se, era o Rubão.

Eles relembraram a história, deram boas gargalhadas e o professor seguiu para a próxima aula, satisfeito, por ter sido um atendente, entregador, boy e empresário de conduta escorreita e ilibada.

E, assim, anos depois, poder lembrar e gargalhar em vez de se envergonhar.

 

 

 

 

Ontem foi aniversário do meu maior pesadelo.

Mesmo tendo passado tanto tempo nunca me esqueci da afronta pela qual passei.

Estava a Menininha doente quando o pai foi até Ele e pediu que a curasse.

Ele que ocupado estava continuou cuidando de seus afazeres.

Daqui a pouco os empregados chegam com a notícia de que ela não precisava mais de ajuda.

Havia morrido.

Ponto para mim.

E Ele, com a maior tranquilidade, fala para o pai acalmar-se.

Vai lá e traz a menina à vida.

Como assim?

Desde que comecei nesse jogo nunca um ponto me tinha sido tirado.

Desde então passei a acompanha-lo mais de perto.

Outro dia, enquanto caminhava, Ele se depara com um cortejo fúnebre.

Eu já tinha computado mais aquele ponto e já estava em busca de outros quando eles se encontraram.

Consolou a mãe daquele que não mais respirava e falou com o garoto.

De um segundo para o outro, ele começou a falar.

Eu, que não sou acostumada a ter gol anulado,  queria ver o fim daquele, que agora me desafiava de maneira recorrente.

O tempo passou e eu até já estava mais tranquila quando o encontrei chorando à beira de um túmulo.

Logo vi que aquilo não iria prestar.

Ele mandou que aquele  fosse aberto.

Como assim?

Chamou seu amigo que já estava lá há quatro dias e o cara veio. Todo enrolado em panos como fora ali colocado. Mas veio .

Minha revolta só aumentava e o único pensamento que eu tinha era que Ele deveria ser levado por mim.

No dia em que isso acontecesse, eu não mais teria problemas.

E esse dia chegou.

Fiquei deveras aliviada quando o tomei em meus braços.

A brincadeira de perde e ganha havia enfim terminado.

Passados três dias, um terremoto.

Quando isso acontece, recebo centenas, milhares de pontos de uma só vez.

Não nesse.

Após a Terra sacudir,  Ele veio de onde estivera com uma beleza e majestade nunca antes vista.

Não só veio como trouxe alguns de seus amigos que já eram meus.

Isso tem muito, muito tempo.

Mesmo assim, a cada ano nessa época, eu me recordo.

É que Ele disse que um dia irá virar o placar em definitivo.

Os que nEle creem se alegram.

Eu tenho medo.

 

A pessoa que se dispõe a tomar o lugar do outro nas situações adversas da vida é alguém digno de ser amado.

Simples assim.

Imagine você que, ainda adolescente morando com seus pais, tinha a insuportável tarefa de lavar as louças às segundas, quartas e sextas.

Quando, após um dia inteiro na praia jogando bola e desfilando sua figura para os menininhos, chega à casa e encontra a pia transbordando de tanta louça.

Quando digo louça, englobo tudo: pratos, copos, talheres, formas e panelas, muitas panelas.

Seu irmão mais novo passa e vê você parada com as mãos na cintura e a cara mais desanimada do mundo olhando aquilo tudo que precisa ser limpo e organizado e simplesmente diz:

“Pode deixar comigo, mana. Eu deixo isso tudo limpo para você.”

Você sem acreditar:

-Tem certeza? Você quer que eu limpe a cozinha amanhã no seu lugar? É isso?

Seu irmão na maior naturalidade do mundo:

“Claro que não. Amanhã é minha vez, eu faço. Mas hoje pode ir, eu limpo tudo aqui, vaza logo.”

Sem que você fizesse nada ele tomou o seu lugar.

E quando o assunto são os trabalhos escolares?

Aqueles famosos trabalhos em que cada uma fazia um pedaço e, depois que estava tudo pronto, montado e encadernado, cada um falava um pedacinho lá na frente para a turma inteira.

E, naquele dia em que você não cumpriu sua parte quando na realização da pesquisa do assunto?

Não deu. Você teve que sair com sua mãe, precisou faltar à reunião.

A pesquisa foi feita sem você.

Sendo assim, sua parte foi digitar o trabalho, mas, justo no dia marcado, acabou a luz no seu prédio, não teve como digitar.

A digitação foi feita por outra pessoa.

Quando chegou a hora da apresentação, foi-lhe entregue um papel com sua parte didaticamente explicada:

“Essa é a sua parte. Leia e apresente exatamente o que está aqui. Eu sei que você não participou por que não pôde, mesmo assim ainda faz parte do grupo.”

Sem que você fizesse nada nem merecesse ele tomou o seu lugar.

E, naquele dia em que a travessia precisava ser feita de qualquer maneira e você, mesmo com toda a boa vontade do mundo, não daria conta de faze-lo, ele, sem nada pedir em troca simplesmente disse:

“Pode deixar, eu faço em seu lugar.”

Mesmo sabendo das consequências que poderia ter, que teria, que teve, atravessou em seu lugar.

Quem toma o lugar do outro nas situações que podem ser um pouco desagradáveis como limpar uma cozinha muito suja, que podem resultar em uma nota baixa ou em uma grande travessia deve sim ser amado.

Quem sai de um lugar magnífico para tomar o seu em meio à escuridão, para que um dia você possa alcançar o lugar de luz perene, deve sim ser eternamente amado.

Feliz páscoa.

Lá era tudo absolutamente igual.

Todos os dias a rotina fria e indiferente de pessoas entrando, trabalhando e saindo sem trocar olhares.

Palavras vão e vêm minimamente.

Quando possível, o silêncio torna-se imperioso.

Fones de ouvido são removidos apenas para serem rapidamente substituídos por telefones.

O ambiente, além de ser monocromático é também monossilábico.

E, se é que existe possibilidade, monoexpressivo.

Mesmice com certeza é a palavra que define o todo.

E ali está ela, a Miss Simpatia em um lugar onde tudo se faz sempre igual.

Quando chega, distribuindo sorriso e simpatia, estranha a indiferença.

Por onde passa, entrega um sorriso e recebe o silêncio macambúzio.

Assim vai desde a portaria até chegar à sua mesa.

Na hora do almoço, todos saem cabisbaixos e ela não recebe sequer um convite para o almoço.

Ninguém.

Todos encapsulados vivem suas vidas no limite de suas mesas sem um sorriso, sem um olá.

Os assuntos tratados são estritamente aqueles para os quais são pagos para conversar.

Quando terminam, tudo se encerra.

É claro que aquele é o principal assunto a ser tratado, sempre, mas deixar uma novata almoçar sozinha?

Ao fim do primeiro dia, Miss Simpatia está tão incomodada que sua vontade é não mais voltar.

Como assim?

Por ter sido colocada em um lugar onde tudo era mono iria fugir?

Iria e não mais voltaria?

Justo ela?

No outro dia vestiu a sua roupa mais feliz, colocou no rosto seu mais belo sorriso e partiu.

Passou pelas mesmas pessoas e, em vez de só dizer bom dia, parou sorriu e falou bom dia a cada uma delas e estendeu a mão.

Recebeu de volta dois tímidos sorrisos apenas.

Na hora do almoço, convidou a cada um de seus colegas para almoçar.

Recebeu dois nãos e um “talvez amanhã.”

Almoçou sozinha.

Ao fim do dia, deu a cada pessoa que por ela passava um sorriso de até amanhã.

Recebeu um olhar admirado.

Foi embora mais satisfeita.

E, a cada dia, repetia o processo.

A cada dia, levava uma pequena gracinha para enfeitar sua mesa.

Pequena, discreta, mas cheia de cor e alegria.

E assim foi.

Alguns dias, sentia-se completamente desanimada, com vontade de deixar que a monotonia que a rodeava entrasse, passasse a fazer parte dela também.

Quando essa ideia chegava, ela pensava que era colorida, alegre, falante e feliz. Não se tornaria monocromática, monossilábida e monoexpressiva só por estar em um lugar assim.

Enquanto desempenhava suas atribuições de maneira excelente e exemplar, ia distribuindo discreta e sorrateiramente seu sorriso, sua cor e alegria.

Até lá pelas tantas, sabe-se lá quando, começou a receber a resposta aos seus “Bom dia”. Em uma só manhã recebeu cinco convites para almoçar e na hora de ir embora, incontáveis “Até amanhã.”

Depois desse dia, reparou, mesmo sem querer, que havia em algumas mesas um colorido diferente e as pessoas estavam desempenhando seus papeis de maneira mais leve, mais feliz.

Nesse dia, o mais taciturno de todos os seus colegas de trabalho disse a ela:

“Miss Simpatia, eu reparei que, depois da sua chegada, as pessoas começaram a sorrir mais nesse lugar de gente séria. As pessoas estão mais leves, mais felizes. Tenho certeza de que isso aconteceu por que você resolveu distribuir a todos nós um pouco da sua alegria a cada manhã. Obrigada por ser nosso ponto de luz.”

Seja luz você também, transforme o lugar onde está e seja mais feliz.

Dias desses ouvi assim:

“Ela deixou um cara super legal para ficar com ele e, agora, olhe só a paga, escolheu errado, a pobrezinha!”

Mas como saber?

Como é que adivinha se esse ou aquele vai ser a escolha errada?

Como saber que escolher aquele cidadão vai te fazer chorar?

Não tem jeito, amiguinha.

Não há como saber se a escolha que se faz hoje é certa ou errada.

A não ser que você observe a sinalização.

Durante todo o caminho, há sinais de que vai dar tudo certo.

Durante toda a estrada, há fortes indícios de que vai sim dar tudo muito errado.

Mas a criatura, bestamente encantada, vai só andando sem nem olhar para os lados.

“Eu sinto que é o certo.”

E lá vai ela, caminhando e cantando.

Sente como?

“Sinto aqui no meu coração. Cada vez que o vejo, o coração vira um cabrito no campo, nunca vi pular tanto.”

E isso só já basta?

Você não está vendo os sinais ao longo do caminho?

“Vejo um ou outro, mas vou seguir meu coração.”

E lá vai ela: caminhando e cantando e seguindo o coração.

Até que, um dia, descobre uma coisinha, uma coisa e uma coisona. Lascou-se afinal.

E fica sabendo o que estão dizendo:

“Coitadinha, escolheu errado.”

Por isso, amiguinha, ao escolher um novo amor, siga o coração e a sinalização.

O coração se engana, mas os sinais sempre mostram o rumo que se deve seguir.
Ou não.

– Algumas coisas me incomodam terrivelmente.

“Então, mude.”

– Mas, assim, algumas coisas da vida alheia me incomodam terrivelmente.

“Você não tem coisas suficientes em sua própria vida para se incomodar e se preocupar? Está tendo tempo de se deter na vida alheia? Faça-me o favor!”

– Não, por favor, deixe-me explicar. Não fico pensando na vida alheia não. Muito menos me intrometo nela. São só algumas coisas que vejo e, na hora, tenho vontade de ir lá e mudar.

“Sinceramente, acho que lhe falta serviço. Não tem uma trouxinha de roupa pra lavar não? Sabe identificar em cinco segundos uma Oração Subordinada Substantiva Completiva Nominal?”

– Ei, espere aí, deixe contar o que me incomoda!

“Sabe ou não sabe identificar a Oração?”

– Não. Não sei, mas estou trabalhando para isso. Posso falar? Poxa vida, eu aqui querendo desabafar minha agonia e você nem pra escutar quieto!

“Se fosse algo seu, eu ouviria calado, mas é da vida alheia. Mas fala, fala logo, desabafa, criatura!”

– O cabelo que esses meninos estão usando agora. Eu acho tão feio! Tão feio, mas tão feio que tenho vontade de chegar assim, quietinha, perto deles passar a máquina bem no meio da cabeça pra aleijar bem o penteado e sair correndo. Aí, o moço que carregava aquele cabelo estranho vai ter que tomar uma atitude.

“Mas não é você que empunha a bandeira de que os cabelos só precisam agradar a quem os carrega? Onde foi parar sua coerência?”

– Sim! Acredito nisso sinceramente. Mas essa moda tá feia demais. Dia desses, apareceu um cara na minha frente que me assustou: misericórdia é uma cacatua. Eu juro, era direitinho uma cacatua o pobre rapaz. O interessante é que ele estava se achando lindo. Nos vimos na academia e ele se olhava e se ajeitava, se achando o máximo.

“E você querendo avançar na cabeça do cidadão para quê? Ele já tinha tomado uma atitude. Havia se transformado em uma cacatua gigante e estava feliz!”

– Assim, só pra tirar o topete loiro, deixar tudo na máquina dois. Acho que ele ia ficar bem simpático.

“Só pra constar: você sabe identificar uma Oração Subordinada Substantiva Completiva Nominal?”

– Ahaa, garoto. E aquelas unhas pontudas?

“Como são unhas pontudas?”

– Aquelas unhas que a pessoa lixa e fica uma ponta, parecendo uma lança. Tenho vontade de atacar com um cortador de unha.

“Deixe ver as suas.” – Ele pega minha mão antes que eu me dê conta. “Suas unhas estão sem fazer e ainda sujas!”

– Como eu ia dizendo, unhas pontudas e cabelos masculinos da moda 2017 me angustiam terrivelmente. E eu não falo essas coisas pra ninguém, só para você, porque tem coisa que me entala e, se eu não falar ao menos pra você, morro engasgada.

“Morre não! Garanto que não morre. E mais, vou dar uma receita: cada vez em que você vir uma coisa da qual não tenha nada a ver, como cabelos que lembram uma cacatua ou unhas em forma de lança, pense assim: eu sei identificar uma Oração Subordinada Substantiva Completiva Nominal em menos de cinco segundos? Caso a resposta seja negativa é sinal que a sua pessoa não tem tempo de se preocupar com nada que diz respeito à vida dos outros.”

Fica a dica.

Para tudo, existem dois caminhos.

A cada escolha, caminhos.

Algumas vezes, muitos.

Todas as vezes, dois.

O que se vê deles?

O começo.

Pequeno trecho do percurso, no máximo um ou dois metros.

Onde vai dar?

Não se sabe ao certo.

Apenas o que se ouve falar da experiência que teve quem escolheu um ou outro.

Tem-se até, no inconsciente coletivo, um senso comum de qual é o melhor.

Afinal, como vivem, onde moram, o que comem e fazem aqueles que escolheram essa ou aquela estrada é evidente a todos.

Alguns conseguem viver bem, morar de maneira encantadora, comer maravilhosamente tendo escolhido esse ou aquele.

E, aí, a dúvida: qual caminho seguir?

Na hora da escolha, o que traz o grande dilema é o que se vê no começo de cada um.

Como se vê pouco, há uma descrição sucinta das possibilidades existentes.
O problema é exatamente o que se vê.

Em um, luzes, música alta, gente bonita convidando a entrar e todo o tipo de atrativo que você possa imaginar caber em um ou dois metros.

No outro, iluminação forte, mas pontual, piso convidativo e impecavelmente limpo, gente bem apessoada com semblante sério, mas feliz. Toda sobriedade que você possa imaginar acomodar em um ou dois metros.

O bacana desses caminhos é que não são túneis onde se entra e não há como sair. É possível ao longo do percurso mudar de ideia, ir e voltar.

Nesse detalhe, todo o perigo.

É comum a pregação de profetas que dizem poder mudar de caminho sem consequências, no fim de cada ciclo de cinco dias. Que não há qualquer perigo. Não existe quem consiga caminhar apenas onde a luz é pontual, é preciso extravasar. Não existe quem consiga caminhar apenas onde o som é alto, é preciso silenciar.

Mas ao longo do caminho?

Muitos, com a intenção de mudar de lado apenas por alguns instantes, têm apagado da memória o caminho de volta e ficam onde o som é alto para sempre ou onde o silêncio é ensurdecedor.

Nunca voltam.

Pesquisas apontam que, ao fim dos caminhos, não existe um pote de ouro, mas há uma ponte muito bem pavimentada entre um caminho e outro e quem escolher um dos dois pode ir e voltar quando quiser.

Mas essa ponte só pode ser cruzada com tamanha liberdade por quem escolher lá no começo um deles e passar a maior parte da caminhada ali.

Pode até mudar de lado, mas tem que voltar.

Rápido.

Porém, na hora de escolher, se é tão novo, sabe-se tão pouco.

Na hora de mudar, é tão bom, tão saboroso.

Na hora de voltar, dolorido, chato, maçante.

Mas quando se chega ao fim do caminho, o que se encontra é irremediável.

Melhor ponderar hoje, enquanto há como escolher qual caminho trilhar, onde permanecer, de onde voltar.

Publicações

abril 2017
S T Q Q S S D
« mar    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Arquivo